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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A Base Material dos Sentimentos

Você está ansioso. Uma angústia profunda o faz sentir-se como quem perdera um membro familiar. Tudo, menos feliz é o estado em que se encontra. É recomendado tomar um ansiolítico pelo seu médico e pronto: você, feito mágica, volta a sorrir, suas emoções se estabilizam e a vontade de viver se torna intensa. E o que ingeriu? Substâncias químicas!

Outro está deprimido. Pior: a tristeza, a autocomiseração, a incapacidade momentânea de não achar graça em nada, podem destruir essa pessoa. Sair, ver amigos, praticar esportes, não surtem efeitos. Nem vontade para essas coisas ela têm. É indicado adequadamente o uso de antidepressivos e em pouco tempo a vida dela muda radicalmente. Os sentimentos negativos cessam em intensidade e a estrutura emocional se restaura. O humor e a alegria de viver voltam a fazer parte de seu dia a dia. E o que ela ingeriu? Substâncias químicas!

Esses dois exemplos, em meio a tantos, ilustram de maneira simplificada o poder curativo de certas substâncias. Elas atuam em nível celular, nos neurônios, influindo no comportamento visível demonstrado pelas pessoas através de seus sentimentos e emoções. Os neurônios são células cerebrais constituintes do sistema nervoso. Para um impulso nervoso se deslocar de um neurônio a outro - a sinapse - faz-se necessário uma presença entre eles de substâncias chamadas neurotransmissoras. Nesse processo podem ocorrer reflexos para determinadas regiões de nosso corpo, onde temos a sensação de que o que sentimos é produzido no próprio local. Um aperto em nosso peito devido a uma paixão levava os antigos a acharem que a sede de nossos sentimentos amorosos era no coração...

A depressão caracteriza-se por uma baixa atividade neurônica devido à falta de substâncias desse tipo, como, por exemplo, a serotonina. O ansiolítico atua aumentando o efeito de neurotransmissores inibitórios da resposta nervosa, como o ácido gama-aminobutírico - GABA. A ansiedade, então, grosso modo, é um estado emocional no qual os neurônios têm suas atividades exageradas.

Tudo isso é bem conhecido entre os médicos e pouco pelo público. Poucas são as reportagens, livros ou informações, relacionando toda essa química aos nossos sentimentos. Os cientistas, já há décadas, vêm descobrindo e utilizando para o nosso bem, na forma de medicamentos, as interligações entre neurotransmissores, condução nervosa, sentimentos e emoções. Estes dois últimos seriam produzidos no cérebro devido a estímulos internos ou externos, visando à perpetuação da espécie segundo a Teoria da Evolução de Darwin. Não formaríamos famílias, sociedades, etc., se não fossem a imensa variedade de sentimentos a que nos pertencem, formando poderosos vínculos entre nós e nossos semelhantes. Como apenas um exemplo, o amor e o afeto, e consequentemente a dedicação dos pais com os filhos, mostra de maneira clara essa força de ligação entre eles.

Nós nascemos completamente indefesos contra as adversidades do mundo exterior. Não só os humanos, mas os outros mamíferos e as aves são evoluídos suficientemente para cuidarem, por meses ou anos, de seus filhotes até atingirem a maturidade necessária para enfrentarem o mundo que os rodeia. A agressividade e até o medo, em forma de defesa, são importantes nessa luta pela sobrevivência e também fazem parte da rede intrincada de reações químicas no cérebro desses seres vivos que são os mais complexos do planeta.

Os peixes, os répteis, os anfíbios e os animais inferiores já nascem em condições favoráveis de luta para a sobrevivência, não possuindo, ou pelo menos sendo pouco desenvolvida, uma região cerebral denominada sistema límbico. É esse sistema o principal responsável pelas nossas emoções e sentimentos.

Já se conseguiu, através de estimulação natural do sistema límbico, que pessoas chegassem a sentimentalismos exagerados, achando elas inexplicáveis esse tipo de comportamento. Em animais agressivos, a simples remoção de uma porção límbica chamada amígdala, fez com que eles se tornassem dóceis e calmos. Em situação oposta, a estimulação do funcionamento da amígdala levou um animal doméstico a estados de terror, agitação intensa e anormal, sem quaisquer motivos reais.

Os objetos de estudo das ciências são aqueles fenômenos percebidos pelos nossos sentidos, algumas vezes utilizando-se equipamentos específicos de laboratório, e que podemos depois entendê-los de maneira objetiva e racional. Fenômenos considerados como manifestações de nossa alma vêm sendo sistematicamente estudados como poderosas interações químicas, capazes de levarem as pessoas de estados momentâneos de alegria ou tristeza, até para paixões avassaladoras e o amor.

Nosso cérebro é composto de um número de combinações sinápticas que ultrapassa o número de átomos do universo conhecido. O número de estados mentais, então, é muito grande, mas é evidente que não somos afetados por todos eles. Mesmo assim o restante é considerável a ponto do cérebro entrar em estados riquíssimos de complexidade e singularidade, tornando-se fonte de situações negativas, ora positivas, às quais chamamos de emoções e sentimentos.

Para muitas pessoas isso soa como puro materialismo, entretanto, os filósofos cristãos e teólogos, entre outros, e em épocas nada adiantadas em Tecnologia, Medicina, Química, e ciências afins, atribuíram a causas sobrenaturais o que essas disciplinas estão descobrindo agora em termos de química cerebral. E os resultados dessas atribuições foram passadas de geração a geração até nós como fatos incontestáveis e intocáveis.

Se algumas substâncias químicas alteram profundamente os nossos sentimentos, então tudo aquilo que é sobrenatural, principalmente os nossos conceitos de alma e espírito, deverá sofrer com o tempo algumas modificações com respeito às suas influências sobre a nossa mente e nosso corpo. O futuro da Ciência será em descobrir até que ponto eles são afetados por tudo que não é sobrenatural. Se é que o sobrenatural existe...

Uma nova revolução filosófica religiosa está prestes a acontecer. Não antes da ciência tiver certeza por onde começar, pois, lidar com conceitos tão arraigados em nossa civilização é tarefa, no mínimo, para ser realizada com muita responsabilidade.



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A Base Material dos Sentimentos - II

Quando da edição do meu artigo "A Base Material dos Sentimentos" (Cérebro & Mente - fevereiro - abril - 2001), eu recebi diversas perguntas relacionadas ao seu conteúdo, e resolvi escrever este segundo texto como se fosse um complemento daquele.

As perguntas, evocando muitas questões, variaram em profundidade e colocação, mas, uma tendência tornou-se clara: os remédios aliviam sintomas depressivos e de ansiedade, mas não afetam, pelo menos em sua totalidade, as ideias, os pensamentos, o caráter e a personalidade das pessoas. Como se muito do que somos não se desmaterializasse? Como os desagradáveis sintomas das doenças e estados emocionais.

Em parte isto é verdade. Mas não é tudo. E para explicar ao leitor esta posição, vou começar este artigo falando do nosso comportamento. De onde ele vem? Ficamos irados com algo que não gostamos, podemos estar contemplativos com respeito à solução de um problema ou nos descontrolarmos perante a ele. Ficamos contentes com uma notícia boa e tristes ao saber da perda de alguém querido. Nosso universo de estados comportamentais é muito grande. Conseguimos até adivinhar o que uma pessoa está sentindo apenas pelo seu jeito de agir ou se expressar.

Pensamos e agimos para reagir adequadamente às situações do meio ambiente. Não fosse essa potencialidade, essa flexibilidade, o ser humano já teria deixado de existir. Sim, nós respondemos às situações ou estímulos do meio ambiente com o nosso comportamento; nascemos com parte de nossa personalidade formada e o resto vem depois, com a nossa criação, educação e experiência de vida. E são elas que vão nos proporcionar as reações adequadas ao enfrentarmos os problemas comuns de nossas vidas. A inteligência entra como um fator a mais só que não é o principal.

O comportamento é uma manifestação macroscópica do que está ocorrendo dentro de nossas mentes; de reações físico-químicas, biológicas, da nossa atividade neurônica, que influencia todo o corpo. Do "micro" ao "macro" e é aí o ponto fundamental da questão deste artigo.

Os remédios aliviam sintomas que nada mais são que desequilíbrios no funcionamento da máquina cerebral. O resto, a base de tudo, o que somos, pensamos e agimos, também faz parte deste sistema. É por isto que as doenças mentais afetam nosso comportamento.

Como um exemplo da manifestação indo do "micro" ao "macro", em termos comportamentais, falarei do aprendizado, sendo ele uma forma de comportamento, pois uma resposta à determinada situação vêm acompanhada de um modo de se comportar. Já se conseguiu, em ratos de laboratório, fotografar o momento no qual eles aprendiam qual era o caminho em um labirinto para alcançar um pedaço de queijo.

Essa experiência envolvendo ratos em labirintos é antiga, clássica, mas o que os cientistas fizeram foi algo no mínimo espetacular: no momento em que os ratos reforçavam o aprendizado do caminho correto, repetindo o trajeto no labirinto, havia uma concentração maior de neurotransmissores nos neurônios em áreas cerebrais ligadas ao aprendizado! O fato "micro", maior concentração de neurotransmissores, se reflete em um comportamento "macro", a descoberta e reforço no caminho ótimo. Digamos que este reforço nada mais é do que outro reforço, a "perpetuação" de ligações neurônicas, uma maior solidez entre as ligações.

Isto é a natureza do cérebro, como ele funciona; o problema era chegar ao ponto onde fatos deste tipo tinham uma explicação. E este ponto dependia de conhecimentos em várias áreas da Ciência como a Neurologia, Psicologia, Química cerebral e, não menos importante, às técnicas de se trabalhar, fotografar coisas tão delicadas como moléculas, ou, pelo menos, concentrações delas. Só o desenvolvimento da Tecnologia do século XX permitiu tamanho avanço nas descobertas envolvendo fatos em nosso cérebro.

Sentimentos produzem comportamentos e possuem uma forte base material onde, desde há muito tempo, se atribuí a algo imaterial, uma alma ou espírito, como aquilo que gera sentimento. A Ciência está revelando outro aspecto da realidade onde os sentimentos, e mais que isto, o que somos e pensamos são produtos de reações ou conjuntos de reações físico-químicas. Ela pode chegar a um ponto onde se descobre que algo, longe do alcance de qualquer instrumento ou conhecimento, influi em uma ou mais áreas do cérebro, afetando todo ou parte de seu funcionamento. Mas, se perceberem uma circularidade, um fechamento na origem dos processos cerebrais, como se as reações fossem sustentadas sem algo incompreensível, imaterial, atuando nos cérebros das pessoas, então aí começaria uma revolução a qual menciono no meu primeiro artigo.



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O Porquê dos nossos Sentimentos

Por que existem os nossos sentimentos? Nossas emoções? Por que somos seres racionais e emocionais e não apenas racionais?

A resposta a estas perguntas poderá - inicialmente - soar estranha e aparentemente sem sentido ao leitor, me parece estar relacionada com um dos mais poderosos instintos inerentes ao ser humano: a sobrevivência de sua espécie.

O conceito de "sobrevivência", entretanto, deve ser mais amplo do que se supõe quando se refere a nós, humanos, pois comer, beber, dormir e procriar não basta. É como se extrapolássemos estes quatro requisitos básicos para sobrevivermos. Precisamos de mais... E este mais está ligado ao nosso bem estar físico, mental, felicidade e satisfação.

Sentimentos e emoções são em grande número em nossas mentes; eles afetam nossos corpos, nosso comportamento, as nossas vidas. Não há espaço aqui para explicar um a um com base na sobrevivência de nossa espécie como animal. Darei exemplos de alguns. Importante realçar também o caráter "estatístico" deste artigo, no sentido em que estarei falando de características de populações. As características de um indivíduo pode representar uma tendência em toda uma população, uma maioria, onde as exceções não importam. Quando eu falar de algum sentimento ou emoção, o leitor deverá pensar em termos amplos, gerais. Por exemplo: se digo que o amor é uma força de ligação, a mais importante entre pais e filhos e que sem ele a raça humana já estaria extinta, excluo os poucos casos onde os filhos foram abandonados ao nascer ou quando criança.

A Teoria da Evolução de Darwin sempre fora mal explicada e mal vista por muita gente. No começo do século XX, aqui no Brasil, era proibido falar nela nas escolas; havia preconceito em todos os países, mas entre os cientistas ela simplesmente só evoluiu desde a sua concepção no século XIX. Isto criou um abismo entre os conhecimentos da Ciência nesta área e tudo aquilo que as pessoas comuns pensam e imaginam sobre como os seres vivos se modificam, se adaptam, sobrevivem, etc. E tudo isto se relaciona apenas com os corpos desses seres; imagine quanta ignorância existe quando se entra na correspondência entre evolução e mente.

Os seres vivos mais complexos do planeta, aves e principalmente mamíferos, possuem cérebros altamente complexos e adaptados para conseguirem sobreviver aos estímulos negativos, destrutivos do meio ambiente. Insetos, peixes e répteis nascem em um estágio de maturidade o suficiente para se locomoverem e explorarem o mundo exterior; fora isto, o número de filhotes é grande o bastante para nem todos serem devorados pelos predadores. A coisa é diferente com os mamíferos: poucos filhotes e frágeis, necessitando-se de uma longa jornada de aprendizagem sobre seu ambiente, para um dia enfrentarem sozinhos os perigos deste mesmo ambiente e procriarem. Aí que entram as emoções. Algumas são básicas e compartilhamos com seres menos complexos: o medo e a agressividade. O medo é importante porque é um sinal de alerta, de algum perigo no meio; quem sobreviveria se não tivesse medo de nada? É necessária a existência de agressividade porque nada pode ser só passivo; enfrentar algum perigo, uma ameaça, requer também respostas passando, às vezes, pela agressividade. Em especial nos seres humanos, a natureza foi "caprichosa" no aspecto emocional: sentimos alegria, tristeza, ódio, paixão, raiva, satisfação, amor, afeto, fé, esperança, etc.

Temos a capacidade de procurar sexo mesmo sem a intenção de procriar. Procuramos porque gostamos, porque faz bem, porque nos satisfaz. Chegamos ao ponto de nos deliciar com um prato só para nos satisfazer mesmo sem estar com fome, ou seja, sem a necessidade momentânea de sobrevivência; por puro prazer. Procuramos coisas como viajar, sair, encontrar alguém para gostarmos, nos divertir, porque faz parte do nosso lazer, do nosso bem-estar. A palavra "gostar" está sempre presente; os sentimentos estão sempre presentes.

Existe o trabalho... Ele deve ser entendido como uma atividade inerente ao ser humano, mesmo qual for o seu modo ou finalidade: do homem de duzentos mil anos atrás ao perseguir uma presa durante horas, ao homem de hoje em um escritório repleto de aparelhos eletrônicos a ajudá-lo em seu dia a dia, tudo é trabalho. Tudo o que for uma atividade a implicar em geração de bens ou realização de uma tarefa imprescindível à nossa sobrevivência, mesmo que indiretamente. É o caso das sociedades que se modernizaram e o fruto do trabalho passou a ser algo "simbólico", o dinheiro, onde através dele conseguimos o que precisamos. Existiria o trabalho para nós se não gostássemos? Se não gostássemos ou se não sentíssemos nada com os seus frutos? Não existe somente o ato de trabalhar; sentimentos e emoções, conquistas que nos levam a satisfações extremamente benéficas a nós estão em jogo.

Quero dizer que vivemos procurando atividades, conquistas, coisas que nos fazem bem, para a nossa felicidade e bem-estar. Se ora não conseguimos temos outras chances, temos nosso amor próprio e continuamos a viver, a procurar. Temos fé, esperança, sonhamos.

E os sentimentos negativos, as emoções violentas e negativas? Veja, nenhum sistema adaptativo como o cérebro, que visa o comando de um corpo para se perpetuar junto a ele, irá responder somente de modo positivo, no sentido de sentimentos positivos, em um meio ambiente onde os estímulos exteriores são positivos e negativos também. Ninguém gostará de um inimigo!

Para se capturar um animal faz-se necessário uma boa dose de agressividade e nós utilizamos recursos muitas vezes cruéis onde, se fôssemos parar para pensar, não comeríamos sequer um pequeno peixe do mar! Pode-se imaginar o quanto as nossas sociedades cresceram e se desenvolveram a custa de muitas mortes ou exploração, onde nossos ancestrais utilizaram e muito da capacidade humana de destruição para com os inimigos. E destruir envolve muita coisa de negativo.

Este é o universo da mente. Interessante salientar o papel da consciência em todos esses processos. Por exemplo: temos consciência de que o sexo é bom; o procuramos como disse anteriormente, sem a intenção de procriar. E também procuramos de forma consciente para deixarmos descendentes... A consciência é que talvez nos leve a transpor àquilo que eu disse a respeito de comer, beber, dormir e procriar: seres conscientes buscam estas coisas de maneira "automática", intuitiva. Mas procuram também para usá-las como fonte de prazer e satisfação; procriar seria exceção, mas o sexo em si não; e procuram outras, como em um nível mais alto de atividade sistêmica, como o lazer, etc., para se sentirem bem. O sexo sem interesse de gerar filhos é talvez o ponto mais alto nessa "escala".

A consciência, indo mais longe, precisa necessariamente de, no mínimo, dois suportes emocionais para se perpetuar; duas forças poderosíssimas: a fé e o amor próprio. Que espécie de seres conscientes conseguiria a perpetuação se não acreditassem em si mesmos? No seu trabalho, na sua luta diária? Ou, como na maioria dos habitantes do planeta, em algo divino para se apoiarem? Nem levantariam da cama! E que sistema poderia também sobreviver se não gostasse de si próprio? O que adianta um corpo forte em uma mente fraca? Chegamos então, talvez, a um fato universal: qualquer ser consciente no cosmos terá este tipo de característica. Talvez não exista nada somente racional.

Este artigo pode dar a impressão de que refere à nossa civilização ocidental, consumista, desejosa de prazeres, poder e dinheiro; não é isso. Ele se refere àquilo que os seres humanos possuem em sua natureza íntima, de básico em suas mentes onde se criou todas as culturas e civilizações até hoje. Umas foram mais pacíficas que outras; algumas foram mais mercantilistas, enquanto outras se preocuparam com a tecnologia e produção industrial. Mas a sobrevivência do homem se deu até hoje com a combinação de um lado racional com outro emocional. E sobrevivência para o ser humano engloba, além de sua natureza racional, tudo o que proporciona satisfação, felicidade, prazer, conquistas, etc. "Estados" correlacionados com nossas emoções e sentimentos. Retire tudo isto dos humanos e verá a nossa espécie desaparecer.



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O Porquê dos nossos Sentimentos - II

O meu artigo "O Porquê dos nossos Sentimentos", representou uma sugestão sobre o papel dos sentimentos e emoções na Teoria da Evolução de Darwin. É um texto de Neurociência onde eu sugiro a razão pelo qual sentimentos e emoções existem em nossos cérebros.

Dúvidas surgiram em vários leitores e por isto senti a necessidade de desenvolver um pouco o assunto. Para começar, temos que entender que existe uma ordem aparente na evolução animal, uma escala crescente em complexidade nos seres vivos do nosso planeta. De seres unicelulares povoando diversos habitats terrestres, até nós humanos, passamos pelos insetos, répteis, peixes, aves e todos os mamíferos, estes últimos menos complexos que nós. A diferença entre nós e os outros mamíferos se refere àquilo que é o sistema mais complexo conhecido: o nosso cérebro. Em termos somáticos, e até certo ponto no sistema nervoso, somos muito parecidos com eles, do ponto de vista da morfologia, da genética e da bioquímica. É importante lembrar que esta escala não representa necessariamente uma ordem crescente em complexidade na história evolutiva de cada grupo em relação aos outros. Por exemplo, uma ave é mais complexa que um inseto, mas este pode ser mais novo como espécie. Pode até ocorrer uma diminuição da complexidade ao longo da evolução de uma espécie. O neurofisiologista Rodolfo Llinás, em seu notável livro "I of the Vortex", relata a existência de um invertebrado marítimo que, ao passar da forma larval, que se move livremente na água, para uma forma afixada permanente, como uma ostra, digere o seu próprio cérebro, provavelmente por não precisar mais de tanta complexidade.

Atualmente é aceito sem dúvidas que a origem das espécies novas está baseada no fato de que os seres evoluem, ou seja, se modificam, se adaptam à mudanças no ambiente etc. Assim, o chamado "modelo padrão" da biologia se consolidou através do casamento entre as descobertas da biologia molecular, da genética e da teoria da evolução. Pode ser argumentado, portanto, que isso se aplica a todos os aspectos da nossa biologia, inclusive as bases para os nossos mais complexos comportamentos e emoções.

A evolução biológica se manifesta através de mudanças permanentes (codificadas geneticamente) na forma e função das células, tecidos e órgãos dos seres vivos, Entretanto, o que interessa para nós aqui, é que desde os tempos de Darwin, mas especialmente como resultado do trabalho pioneiro de etólogos com animais na década de 30, tais como Konrad Lorenz, se sabe que o comportamento dos animais também está sujeito a pressões seletivas e adaptativas. O comportamento "surgiu" na Terra há muito tempo. Por exemplo, um ser unicelular, como uma ameba reage se afastando de um estímulo negativo ou se aproximando de um estímulo positivo para sobreviver. Comportamentos simples, como tropismos deste tipo, existem provavelmente há centenas de milhões de anos, e podem ser encontrados até mesmo em organismos que não têm sistemas nervosos, como plantas. Entretanto, a seleção natural pressionou pelo surgimento de comportamentos cada vez mais complexos e avançados, levando à evolução dos órgãos sensoriais, músculos e redes neurais especializadas. Para o comportamento aplica-se a mesma coisa que para outros traços dos organismos: quanto maior for a gama de comportamentos exibidos por um determinado organismo reagir, sobreviver, maior será a sua chance de se adaptar adequadamente ao ambiente mutante. Diversidade é a palavra-chave aqui. Muitos autores sugerem, portanto, que a complexidade cerebral é essencialmente relacionada à complexidade das estratégias comportamentais desenvolvidas para a sobrevivência da espécie e os rigores da competição. Por isso não é difícil de imaginar que, como os organismos precisam adquirir e processar uma maior quantidade de informações a respeito do meio ambiente, isso exige um sistema nervoso mais complexo.

Eventualmente (e esse era um dos maiores medos de Darwin, como humanista e religioso), todas as características do cérebro humano, mesmo aquelas consideradas "superiores" e complexas, como linguagem, pensamento, lógica, sentimentos etc., podem ser inteiramente explicadas pelos efeitos da seleção natural na evolução. Alguns autores, como Richard Dawkins, chegam ao extremo se sugerir que a característica essencial de todas as formas vivas é simplesmente preservar a sobrevivência dos genes (veja o seu livro "O Gene Egoísta").

No meu primeiro artigo citei o exemplo da "força de ligação" que aparece entre pais e filhos, através de sentimentos como o afeto, o amor etc., sem os quais ninguém sobreviveria neste planeta logo após o nascimento. Entretanto, em muitas situações, o instinto de proteger os filhotes entra em conflito com os instintos de sobrevivência. Primeiro, um genitor precisa, entre outras coisas, saber quem são seus filhos, saber o que fazer para protegê-los e a si próprios. Neste ponto o cérebro, com o lado racional, é importante quanto o lado emocional. Além disso: reações como a agressividade contra predadores e comportamentos e sentimentos de defesa em relação ao bem estar do grupo social como um todo, podem tomar uma precedência em relação aos próprios cuidados com a prole, devido à necessidade de perpetuar a espécie. Podemos observar isto em primatas não humanos, tais como chimpanzés, em que o infanticídio é muito comum e é relacionado às bases instintivas desses tipos de defesas.

Isso não acontece com os seres humanos, entretanto. Devido à evolução cultural, a base emocional e instintiva pode ser inteiramente modificada através da razão. Por exemplo, uma mãe pode preferir sacrificar a própria vida para salvar a do seu bebê. Ou a sobrevivência do grupo social pode ser ameaçada com base em razões puramente racionais (como na guerra). "Saber" é racional; "sentir" é emocional e aí estão os dois pilares cerebrais de que falei no primeiro artigo: somos seres racionais e emocionais e não só racionais. Essas duas esferas estão unificadas e não podem ser separadas, como foi explicado de forma muito bonita pelo neurologista António Damásio, em seu livro "O Erro de Descartes". Citando a falta completa de emoções em personalidades sociopatas e as alterações de personalidade em pacientes lesados em certas áreas frontais do cérebro, tal como no caso histórico de Phineas Gage, Damásio explica que o erro de René Descartes foi supor que há uma separação entre o racional e o irracional (emoções, sentimentos) e que ser supremamente racional seria a melhor coisa para a humanidade. Não é verdade: sem emoção, a racionalidade perde um componente importante e se torna patológica!

Em conclusão, podemos dizer que a natureza encontrou um caminho para resolver o problema dos seres vivos que possuem uma prole dependente dos pais durante o período de amadurecimento. As estratégias comportamentais que surgiram após milhões de anos da evolução dos hominídeos e de seleção sexual envolvem uma complexa mistura de razão e emoções. Esta provavelmente é base da nossa singularidade entre todas as espécies.



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